quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008

Jane e eu

Quando eu era criança eu imaginava muitas coisas. Imaginava, por exemplo, que quando eu tivesse menos de 18 anos conheceria um cara em algum lugar (de preferência em Peruíbe) e, ao avistá-lo pela primeira vez, saberia com certeza que estava diante do homem da minha vida. Esse foi o primeiro erro de uma seqüência amargamente significativa que define minha vida amorosa até o presente momento e, definitivamente, o pior de todos.
Mas, diferente da maioria das mulheres que choram pelo mesmo motivo, na minha história eu não sou a vítima. E não, eu não sofri de abandono, traição, deslealdade, amor não-correspondido ou períodos sucessivos de azar pós-pré-menstrual.
Pois foi justamente no auge da minha amargura que conheci Jane Austen, escritora inglesa do século 17. Bem, eu já havia lido alguns livros e visto os filmes baseados nos livros dela, mas foi semana passada que assisti o filme ‘Persuasão’. O filme mal chegou ao cinema, mas eu encontrei por acaso no camelô (sim, os camelôs geralmente não vendem filmes bonitos que a maioria das pessoas não conhecem e não têm interesse, por isso considerei este meu ‘achado’ um tipo de coisa do destino). Enfim, quando o filme terminou, eu percebi uma coisa que me deixou muito chateada. Eu vou ter que contar o filme todo porque eu preciso muito fazer isso.
A história é sobre uma mulher que, no auge de sua juventude se apaixona por um cara e vice-versa. Porém, é aquela velha história: o cara é pobre, ela é rica. Na verdade, ao contrário do que eu imaginava, não há empecilho nenhum para que os dois se casem. O pai não incentiva, mas também não a pune. O real motivo que a faz recusar o pedido de casamento do moço é a tal da persuasão do título mesmo. A melhor amiga dela é contra, e faz a cabeça para que não se iluda com uma paixãozinha, que a vida não é um conto de fadas e etc. Ela acaba concordando e dá um pé na bunda do coitado. Eu não a condeno. Mas também não o condeno pelo sofrimento que ela causa.
Bem, 8 anos depois ela então com seus 27 anos e solteirona. Considerando que no século 17 isso significava encalhada, era assim que ela se sentia e era assim também que os outros a faziam sentir. O pai, meio falido, decide alugar a mansão onde a família vive para conseguir melhorar a situação financeira. Adivinha quem é o inquilino?
A irmã do rapazote por quem ela fora apaixonada. E este agora está muito, muito rico. E muito, muito bonito. E muito, muito cobiçado. E - ainda - muito, muito magoado. O negócio é que eles sofrem prá caramba, mas acabam ficando juntos, como em todo bom romance romântico bonito e feliz.
Então eu fui pesquisar sobre a vida da nossa queria autora Jane Austen e então foi o que li: ela se apaixonou por um rapaz quando tinha 20 anos, mas ele era pobre, ela era rica. Os dois se separaram. Dizem que os anos se passaram e ela nunca o esqueceu. Isso foi na mesma época em que ela escreveu ‘ Persuasão’. Jane morreu solteira.
Essa foi a maior prova da barreira entre vida-real e a ficção que já presenciei. Foi estranho na hora, mas me senti a detetive de uma trágica história de amor. E agora eu me pergunto se o livro teria sido o refúgio de Jane para que as coisas terminassem bem.